18/08/2006 - 18h26
Conheça a tecnologia que deverá ser usada nos chips
veiculares
FRANCISCO MADUREIRA
Editor do UOL Tecnologia
Câmeras. Antenas. Satélites. E agora, chips. Em
uma era cada vez mais "1984", de George Orwell, São
Paulo pode tornar obrigatória a instalação
de etiquetas eletrônicas em veículos a partir de
2007. Com eles, seria possível rastrear qualquer carro
pela cidade em tempo real, conforme o chip é detectado
por antenas espalhadas pelas ruas.
No último dia 9 de agosto, o prefeito Gilberto
Kassab (PFL) e o ministro das Cidades Márcio Fontes divulgaram
a assinatura de um protocolo de intenções para regulamentar
no Contran (Conselho Nacional de Trânsito) a obrigatoriedade
do chip.
A etiqueta eletrônica funcionaria como o "Sem
Parar", sistema eletrônico de pagamento de pedágios,
e vai utilizar a tecnologia RFID (Identificação
por Radiofreqüência).
O bilhete único, utilizado como meio de pagamento
no transporte público de São Paulo, já utiliza
esta tecnologia. Nova York vai começar a testar um sistema
semelhante no metrô neste semestre, e o metrô de Moscou
possui cartões com RFID desde 1998. A tecnologia também
é utilizada para administrar grandes estoques em redes
de supermercados ou bibliotecas, e nas chaves de carros com imobilizador
eletrônico.
Até seres humanos já implantaram chips
RFID, como Kevin Warwick, professor britânico que tem por
projeto tornar-se um ciborgue. Algumas casas noturnas de Barcelona
(Espanha) e Rotterdam (Holanda) também fazem implantes
em seus clientes VIP, que utilizam o chip no lugar de comandas
de consumo.
Privacidade
A grande polêmica em torno da tecnologia RFID
está na capacidade que governos e companhias podem ter
em rastrear informações pessoais. No site www.spychips.com,
por exemplo, Katherine Albrecht e Liz McIntyre, ativistas da privacidade
do consumidor, fazem campanha contra o uso de chips e relacionam
empresas e produtos que utilizam RFID.
De qualquer forma, apesar da polêmica, a intenção
da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) de São
Paulo não é se tornar um Grande Irmão, personagem
de Orwell. "Apenas vamos dispor de ferramentas mais modernas
para gerir o tráfego", diz Aquiles Pisanelli, 54,
engenheiro mecânico e assessor de diretoria da CET.
Ele conta que já existem 24 antenas instaladas
na cidade, em um projeto piloto que contou com a participação
de 550 veículos. A privacidade, explica, deve ser "total",
e a localização dos veículos não será
divulgada para outros órgãos públicos, "salvo
se houver uma decisão judicial ou algum outro fato de força
maior que motive essa ação".
Pisanelli participa de um grupo de trabalho que
definirá, nos próximos 60 dias, os detalhes do sistema
IAV (Identificação Automática de Veículos).
Segundo ele, após a conclusão dos trabalhos, ainda
é necessária uma resolução do Contran
e um acordo da prefeitura de São Paulo com o Detran para
que o chip se torne realidade.
Ele conversou com o UOL Tecnologia e deu mais detalhes
sobre o funcionamento do sistema. Confira os principais trechos
da entrevista:
UOL Tecnologia - Os chips serão
gratuitos? Como eles serão instalados?
Aquiles Pisanelli - Sim, serão gratuitos. A idéia
é de que os proprietários se dirijam a locais específicos
para fazer a instalação e o registro dos dados do
veículo e de seu chip (ou etiqueta eletrônica). Se
o modelo de chip adotado for similar ao do "Sem Parar",
por exemplo, os chips serão colados no pára-brisas.
Também há modelos para instalação
junto à placa e em outros pontos do veículo.
UOL - Então ainda não
há definição sobre onde serão instalados
os chips?
Pisanelli - Tudo dependerá da tecnologia que irá
ser adotada no país. Existe um grupo de trabalho, constituído
pelo Ministério das Cidades e coordenado pelo Denatran
(Departamento Nacional de Trânsito), que estudará
o assunto e deve chegar às definições em
60 dias. Os trabalhos deste grupo começam efetivamente
esta semana, com uma reunião em Brasília na quinta
(17/08), com a participação de representantes do
CET, do Denatran, do Detran-RJ (Departamento de Trânsito
do Estado do Rio de Janeiro) e do serviço de inteligência
da presidência da República, entre outros.
UOL - Será possível
retirar o chip do veículo após a instalação?
Pisanelli - Não. A idéia é de que o chip
se autodestrua se for retirado do local onde foi originalmente
instalado.
UOL - O chip substituirá
o emplacamento dos veículos?
Pisanelli - Não. Eventualmente, em um futuro mais distante,
pode ser que isso ocorra. Mas é bom esclarecer que isso
é matéria de legislação federal, no
âmbito do Contran, não uma decisão que caiba
à CET, que é municipal.
UOL - Que empresa vai fabricar
o chip? Que tecnologias ele usará?
Pisanelli - Existem diversas empresas fabricantes de etiquetas
eletrônicas no mundo. Não existe nenhuma pré-definida,
porque os detalhes da tecnologia que vamos utilizar no Brasil
ainda têm que ser definidos pelo grupo de trabalho, e também
porque a seleção depende de uma concorrência.
O que se pode adiantar é que os chips vão utilizar
a tecnologia RFID, a Identificação por Radiofreqüência.
UOL - O chip então permitirá
rastrear os carros a distância?
Pisanelli - O chip poderá rastrear um veículo quando
isso for necessário. O funcionamento do sistema IAV (Identificação
Automática de Veículos) é bastante simples:
conforme um veículo com chip passa por uma antena instalada
na rua, essa antena detecta o chip, identifica-o e envia essa
informação para um sistema informatizado. Como a
localização da antena é conhecida, podemos
saber por onde o veículo passou e para onde está
se dirigindo, conforme ele é detectado por outras antenas.
Esta informação é importante no caso de um
veículo roubado, por exemplo.
UOL - Então a localização
não será em tempo real, como seria com uma tecnologia
como o GPS (Global Positioning System), certo?
Pisanelli - Com o chip será possível detectar os
pontos pelos quais um veículo passa, e com base nisso prever
para onde ele está indo. Se for acionado como rastreador,
o sistema poderá sim localizar um carro em tempo real.
UOL - Que tipos de infração
poderão ser detectadas pelo chip?
Pisanelli - Desrespeito ao rodízio e às zonas de
máxima restrição de circulação,
por exemplo. Todavia é importante deixar claro que a intenção
principal da CET é utilizar o sistema IAV principalmente
na gestão do tráfego. Dentre diversas outras aplicações
possíveis, o sistema possibilita calcular a velocidade
média nas vias, fazer a contagem selecionada de veículos,
pesquisar a origem e o destino dos carros, monitorar o transporte
de produtos perigosos, de cargas volumosas ou indivisíveis,
e também o deslocamento de frotas, além de uma série
de outras ferramentas para a gestão do tráfego em
tempo real.
UOL - Mas e o caso das Marginais,
ou de outras avenidas em que trafegam caminhões e veículos
de outros Estados? Com tantos veículos sem chip, os dados
do sistema não ficam irreais?
Pisanelli - Para evitar que isso aconteça, pretendemos
usar em diversos pontos um sistema combinado, com IAV e o LAP
(Leitura Automática de Placa), que a CET vem testando deste
2005. Quando um veículo passar pela antena e o IAV descobrir
que ele não tem o chip, o LAP entrará em ação
- ele fotografa a placa e usa um software de OCR [como os utilizados
por scanners domésticos para digitalizar textos] para identificar
o veículo. Então ele consulta uma base de dados
nacional para obter os dados.
UOL - A Prefeitura ou a CET prevêem
a utilização do chip para algum tipo de cobrança,
como pedágios ou zona azul? Como funcionaria a cobrança,
nesses casos?
Pisanelli - Essas são aplicações que dependem
dos detalhes da tecnologia que será adotada no país
e que ainda está dependendo de regulamentação.
Há duas opções: a tecnologia européia,
que opera com uma faixa de freqüência de 5,8 GHz, e
a americana, que opera em 915 MHz. As duas têm experiências
prévias no Brasil.
UOL - Como funcionaria o pagamento
de IPVA ou o licenciamento, uma vez que todos os carros da cidade
tenham chip?
Pisanelli - Quando o veículo passa por uma antena, o sistema
verifica na base de dados se há débitos de IPVA,
multas ou licenciamento. Em uma blitz, por exemplo, o policiamento
de rua poderá facilmente identificar e deter os veículos
irregulares, diferentemente de agora, quando os policiais não
sabem qual é a condição do veículo
que param.
UOL - Haverá privacidade
para os dados do usuário? A prefeitura ou a CET têm
uma política de privacidade para esse tipo de informação?
Pisanelli - A privacidade deverá ser total. Da mesma forma
como ocorre hoje com as informações bancárias
e telefônicas. Uma política de privacidade será
adotada pela entidade que operar o sistema. Esse é também
um dos temas a ser tratado pelo referido grupo de trabalho.
UOL - A instalação
do chip representa alguma ameaça à privacidade do
cidadão, na medida em que seu veículo pode ser encontrado
em qualquer lugar?
Pisanelli - Um veículo com chip é a mesma coisa
que um celular. Ele eventualmente pode ser localizado se houver
uma decisão judicial ou algum outro fato de força
maior que motive essa ação e que esteja devidamente
amparado em lei. Senão, não poderá ser localizado.
UOL - A tecnologia permitirá
compartilhamento com outros serviços de georreferenciamento,
como guias de ruas online?
Pisanelli - Isso é possível. Todavia, para uma resposta
mais conclusiva, devemos esperar a conclusão dos estudos
do referido grupo de trabalho.
UOL - Na previsão da CET,
quantas antenas deverão ser instaladas inicialmente em
São Paulo, caso o projeto seja posto em prática?
Pisanelli - Essa informação ainda não está
disponível, pois depende da tecnologia a ser adotada. Mas
podemos adiantar que serão 2.000 ou 3.000 antenas, em função
das características da cidade. Mas tudo ainda depende do
resultado dos trabalhos do grupo de trabalho.
UOL - E como foram os testes realizados
em setembro de 2005 nos Jardins, em São Paulo?
Pisanelli - Os testes que começaram em setembro do ano
passado, e continuam até agora. Foi implantado um projeto
piloto com a instalação de 24 antenas no quadrilátero
formado pelas avenidas Nove de julho, Rebouças, Paulista
e Faria Lima. Cerca de 550 etiquetas eletrônicas foram instaladas
em táxis, viaturas da CET e outros veículos voluntários
que trafegam pela região.
Até o momento, o piloto tem apresentado resultados
muito satisfatórios. Conforme os veículos circulam
pelas vias, as etiquetas têm sido facilmente identificadas
pelas antenas. Conseguimos obter dados de contagem classificada
de veículos, velocidades médias e tempos de percurso,
instantaneamente, em todas as vias onde há antenas.
As informações das origens e destinos
dos veículos que participam do piloto têm sido compiladas,
permitindo um estudo apurado do comportamento do tráfego
na área, e, com o mapa obtido com estes dados tem proporcionado
informações on-line das condições
de tráfego nas vias da região.
UOL - Haverá proteção
contra clonagem dos chips?
Pisanelli - Essa é uma das principais preocupações
na definição da tecnologia. Dentre outras proteções,
os dados dos chips serão criptografados para evitar a clonagem
e outros usos inadequados.
UOL - E onde ficarão armazenados
os dados dos usuários dos chips? Como a segurança
desses dados será garantida?
Pisanelli - Da mesma forma como ocorre atualmente, os dados dos
proprietários de veículos ficarão sob responsabilidade
dos órgãos de trânsito e com a segurança
que seus computadores têm proporcionado até hoje.
UOL - Que órgãos
e entidades terão acesso a esses dados? Alguma entidade
privada terá acesso às informações?
O que garante que dados pessoais e privados podem vazar para a
iniciativa privada?
Pisanelli - O acesso a esses dados se dará nos moldes de
legislação vigente, com total obediência aos
preceitos legais de manutenção da privacidade do
cidadão, da mesma forma como ocorre com o sistema bancário
e o de telefonia.
UOL - Há expectativa de
venda das informações obtidas (rotas mais freqüentes,
controle de tráfego, etc.) para alguma entidade pública
ou privada?
Pisanelli - Não se cogita vender informações.
Repita-se que há previsão de sigilo na identificação
do veículo, da mesma forma que para o sistema bancário
e o de telefonia.
UOL - Os dados de fiscalização
e monitoramento serão disponibilizados na Internet? Que
dados serão abertos, que dados serão fechados?
Pisanelli - Poderão ser disponibilizados todos os dados
que digam respeito ao trânsito tais como: condições
de tráfego, velocidade média na via, rotas alternativas,
etc.
UOL - A localização
de veículos será compartilhada com setores da segurança
pública?
Pisanelli - Não. Com ninguém. Salvo se houver uma
decisão judicial ou algum outro fato de força maior
que motive essa ação e que esteja devidamente amparado
em lei.
UOL - Qual é a previsão
para o início de instalação dos chips e das
antenas na cidade de São Paulo?
Pisanelli - Isso depende uma série de providências
legais prévias, nos planos municipal, estadual e federal.
A expectativa é de que isso ocorra no decorrer de 2007.
UOL - O chip permitiria a substituição
do rodízio pelo pagamento de taxas para circular em dias
determinados?
Pisanelli - Evidentemente, o chip facilitaria a fiscalização
dessa prática. Todavia são assuntos independentes.
Essa prática poderia até ser adotada hoje, mas não
o é por uma questão de filosofia.
UOL - Segundo reportagem da Folha
publicada na última quarta, Roberto Scaringella, presidente
da CET, é defensor contumaz do pedágio urbano. A
instalação do chip é o primeiro passo para
a cobrança?
Pisanelli - O projeto de implantação do chip está
totalmente desvinculado da idéia de pedágio urbano.
UOL - Há exemplos de outras
cidades ou países que implantaram o chip em veículos?
Qual a experiência e usos dados ao chip nestas regiões?
Pisanelli - Temos notícias de que diversos países
têm utilizado o chip para identificação veicular.
Nas capitais da Noruega e do Chile, por exemplo, foram recentemente
implantados sistemas semelhantes ao que se pretende adotar aqui.
Todavia, como são casos muito recentes, ainda não
há base de dados para maiores informações
sobre o desempenho desses sistemas.
UOL - O CET vai se tornar um "Grande
Irmão"?
Pisanelli - Não. Apenas vai dispor de ferramentas mais
modernas para gerir o tráfego de São Paulo. Com
estas novas ferramentas para gestão e controle do transito
e do tráfego a CET poderá: melhorar a fluidez do
transito, controlar acessos a áreas com restrições,
aumentar a eficiência da fiscalização e reduzir
a inadimplência.