O real e o câmbio chinês
GUIA FINANCEIRO
Fonte: Dinheiro Vivo - Uol
De quanto precisaria ser o câmbio brasileiro para ser equivalente
ao chinês? É um desafio complexo que foi encarado
pelo consultor Eduardo Giuliani - que participou da equipe da
consultoria McKinsey, produtora de um relevante relatório
sobre a competitividade brasileira na segunda metade dos anos
90.
Giuliani atualizou os dados utilizados na metodologia para chegar
ao valor de paridade do real: imensos R$ 6,00 o dólar.
O trabalho começa por alguns axiomas. Crescimento econômico
significa aumentar o PIB per capita de um país calculado
em Paridade de Poder de Compra (PPC, que mede efetivamente o quanto
cada moeda nacional pode comprar). Este mecanismo ocorre através
de duas alavancas: aumento de produtividade em cada setor da economia
e migração de mão-de-obra de um setor menos
produtivo para um mais produtivo. E considera o câmbio o
principal determinante da demanda pelo valor agregado nacional
(a parcela da produção feita no país).
O estudo comparava Brasil e Coréia pelo chamado PPC. Pelos
estudos de 1999, o PIB per capita brasileiro era de US$ 5.400
contra US$ 11.450 da Coréia. Dessa diferença, US$
2.710 (45%) se deviam à diferença no mix de novos
empregos; US$ 2.520 (42%) de ganho de produtividade nos empregos
atuais; US$ 0,82 (13%) de ganhos de produtividade nos novos empregos.
A partir daí, Giuliani se vale da metodologia da McKinsey
para analisar os efeitos dos ganhos de produtividade e da redução
de custos sobre a demanda agregada e o crescimento econômico.
Depois, analisa os efeitos do câmbio sobre o processo de
desenvolvimento, concluindo que a taxa de câmbio define
a taxa de crescimento no Brasil por razões lógicas
e objetivas:
1. Empresários investem em planos de negócio que
dêem lucro
2. O câmbio define o preço internacional de todos
os produtos brasileiros
3. O preço internacional dos produtos brasileiros determina
o nível de demanda pelo valor agregado brasileiro (demanda
externa e interna através de substituição
de importações)
4. O impacto do câmbio no preço é muito mais
importante do que o impacto dos juros nos custos, pois preço
é 100% do valor agregado e juros é de ordem de grandeza
10 vezes menor (um dos itens de custo que influenciam o preço).
5. O câmbio pode tornar um enorme volume de planos de negócio
viável.
Giuliani fez um estudo detalhado do PPC a partir de três
fontes distintas: Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional
e Universidade da Pensilvânia (PWT). Usando os dados do
FMI, chegou ao valor de R$5,47, para o real atingir o nível
da China; e R$6,06 para o nível da Índia.
O valor em questão é de taxa real (efetiva). Se
o Brasil quiser levar a moeda para o nível de competitividade
da China, tem que jogar para os R$ 5,47 mais inflação
(IGPM) que for gerada após esta desvalorização,
estimada por ele em 50% durante 2-3 anos.
Obviamente o que interessa no estudo são os grandes números,
a noção de grandeza, relevante por mostrar a enorme
disparidade de preços que o produtor brasileiro precisa
enfrentar, e a loucura da atual política cambial, esgotando
as últimas energias da economia.
Por Luís Nassif