Kirchner manterá restrições a calçados
Segunda-feira, 28 de Agosto de 2006
O Estado de S. Paulo
O governo do presidente Néstor Kirchner deixou claro neste
fim de semana que continuará aplicando restrições
para a entrada de calçados e eletrodomésticos Made
in Brazil. O Secretário de Indústria e Comércio,
Miguel Peirano, que esteve na quinta e sexta-feira em Brasília
reunido com representantes do governo brasileiro, afirmou que
"os acordos entre privados e as limitações
às importações do Brasil em setores sensíveis
aos subsídios (do Brasil) continuam em vigência e,
nesse sentido, a indústria do calçado e linha branca
(geladeiras, fogões e máquinas de lavar roupa) continuarão
dentro dessa política".
Desta forma, Peirano retrucou o secretário-executivo do
Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Exterior do Brasil, Ivan Ramalho, que na sexta-feira declarou
que "a indústria brasileira e o governo entendem que
já houve uma contribuição importante do Brasil
à indústria argentina e que o desvio do comércio
não recomenda um novo acordo de restrição
voluntária".
O governo Kirchner preferiu não fazer comentários
específicos sobre as declarações de Ramalho,
restringindo-se a explicitar sua decisão de continuar aplicando
as restrições aos produtos brasileiros. As restrições
argentinas começaram a ser aplicadas em julho de 2004,
quando o presidente Néstor Kirchner lançou uma cruzada
contra a suposta "invasão" de produtos brasileiros.
Para agradar os setores industriais argentinos, Kirchner passou
a exibir um lado "protecionista" de seu governo.
Kirchner aplicou restrições por dois caminhos.
Um, de forma unilateral, ao aplicar barreiras alfandegárias,
como licenças não-automáticas. O outro, por
meio de drásticas pressões, que levaram os empresários
brasileiros a aceitar acordos "voluntários" de
limitação de suas exportações para
o mercado argentino.
Nos últimos dois anos, o governo Kirchner sustenta que
as empresas argentinas precisavam desse período de restrições
para poder recuperar-se da recessão de 1998-2002 e mais
especificamente, da crise financeira, social e econômica
de 2001-2002.
RECUPERAÇÃO
O governo brasileiro considera que os três anos de crescimento
do PIB argentino - em média de 9% anual - e este quarto
ano (no qual o PIB poderia crescer entre 7,5% e 9%) são
sinais suficientes de que as empresas argentinas se recuperaram.
Mas, o governo Kirchner considera que a recuperação
ainda não está completa, e que é preciso
esperar "um pouco mais" para abolir as restrições.
Os empresários argentinos consideram que as declarações
do governo brasileiro tem o objetivo de atender "questões
internas" do Brasil, ou seja, reduzir ao máximo os
motivos pelos quais a oposição - em plena campanha
eleitoral - poderia criticar o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva; especialmente os relativos à política
externa, um dos flancos fracos do atual governo.
O presidente da Câmara de Calçados, Alberto Sellaro,
surpreendeu-se com as declarações de Ramalho. Segundo
Sellaro declarou à imprensa, "o governo argentino
continuará mantendo sua posição atual, que
nos proporcionou significativos investimentos no setor de calçados".