Empresas de calçados voltam a investir
Fabricantes atribuem melhora às medidas contra importação chinesa
ESTÍMULO - Indústrias retomaram investimentos após barreiras tarifárias contra calçados chineses
Dona da fabricante de sapatos gaúcha West Coast, a família Schefer decidiu parar de lamentar as perdas nas exportações por causa da valorização do real. A empresa, que produziu 2 milhões de pares na fábrica de Ivoti (RS) em 2009, quer aumentar em 25% a produção este ano, mas agora de olho no mercado interno. Para atingir a meta, inaugura em abril uma fábrica no interior de Sergipe, onde investirá até R$ 10 milhões em cinco anos.
O movimento da empresa é um dos primeiros na retomada de investimentos no setor este ano, depois de cinco anos de retração. O estímulo vem da expectativa de crescimento da economia e, principalmente, das barreiras tarifárias que o governo impôs aos concorrentes chineses em setembro do ano passado.
Para Heitor Klein, diretor executivo da associação do setor, a Abicalçados, os dados favoráveis desde as medidas antidumping comprovam que a indústria nacional era prejudicada pela importação dos chineses. Embora o setor industrial tenha fechado o ano com recuo de 8,6% na produção, segundo o IBGE, houve crescimento de 8,5% no quarto trimestre.
Segundo Klein, a entidade espera para os próximos dias uma decisão do Câmara de Comércio Exterior (Camex) estendendo por pelo menos cinco anos a taxa de importação de US$ 12,47 para o calçado chinês.
"Ainda é cedo para prever o montante de investimentos, a maioria ainda está em planejamento, esperando algo mais concreto. Mas a reação do setor já pode ser medida pelas contratações. Enquanto fechamos 8,7 mil vagas em 2008, abrimos 13.387 em 2009. A maioria foi no fim do ano. Só em janeiro deste ano, foram criados 8 mil empregos na indústria de calçados", afirmou Klein.
NOVO PÚBLICO
A West Coast já tirou 40% de sua receita com exportação, mas hoje as vendas externas não passam de 20% do total. Para Eduardo Schefer, diretor operacional da empresa, o principal alvo hoje é o mercado interno, turbinado pelo aumento da renda das classes C e D. É para esse público que produz mais de 200 tipos de calçados masculinos e lançou há dois anos uma linha feminina com 150 modelos.
Apesar dos efeitos da crise na indústria de calçados, a West Coast aumentou em 15% a produção em 2009, em relação a 2008. Segundo Schefer, o faturamento ficou em R$ 160 milhões, avanço de 3%.
"A linha feminina, que cresceu 25% no ano passado, sustentou nosso resultado na crise. As classes C e D são as que mais crescem e aí estão as maiores oportunidades. É um público que já quer mais qualidade e variedade", avalia o executivo e herdeiro da empresa.
Schefer também aposta na manutenção da barreira aos chineses. "Não dá para competir com eles. Os sapatos chineses chegam pelo menos 30% mais baratos. No começo, os produtos eram muito ruins, mas evoluíram em qualidade", admite Schefer. "Soubemos de importadores em São Paulo que revendiam caixas com 12 pares chineses por US$ 2. É muito injusto com a indústria nacional."
Fonte-O Estado de S.Paulo
26/02/2010