Doha encarada como Rodada da China pelos calçadistas
Jornal NH
Se já estivesse concluída, a Rodada
de Doha — a idéia é diminuir as barreiras
comerciais em todo o mundo, com foco no livre comércio
para os países em desenvolvimento — iria minar
os negócios do complexo calçadista. “Os
impostos no mundo não prejudicam os calçados.
Aliás, a Rodada de Doha deveria se chamar Rodada da China
porque a redução de alíquotas em todos
os produtos somente tem a beneficiar os chineses”, disse
o consultor de Negócios Internacionais da Abicalçados
(Associação Brasileira das Indústrias de
Calçados), Adimar Schievelbein.O consultor é enfático
ao alegar que esse tipo de negociação tende a
alimentar ainda mais a potência chinesa — já
causadora de muitos estragos em alguns segmentos econômicos
brasileiros. E sustentou que Doha não tratá nenhum
benefício para os calçadistas visto que o objetivo
maior é o da redução de impostos, que por
sua vez permitiria que a China, por conta da valorização
do real, venha mais facilmente conquistar o mercado brasileiro.
“Isto somente iria enfraquecer o setor calçadista
no País. E com relação ao mercado externo,
nada também nos ajudaria.”O presidente da AicSul
(Associação das Indústrias de Curtume do
Rio Grande do Sul), Cezar Müller, também vê
nas negociações da Rodada de Doha uma ameaça
para os setores industrializados. O benefício poderia
ser sentido apenas pelo setor primário (leia-se principalmente
agricultura). “É interessante para o setor primário
porque abre um canal de livre negociação, mas
devemos ter cuidado, pois pode prejudicar setores estratégicos
do Brasil, como é o caso do calçadista, na medida
em que for diminuída a tarifa de importação”,
avaliou.Crise - Segundo Müller, nos segmentos em que o
Brasil não é competitivo, a rodada vem somente
para auxiliar, enquanto onde existe competitividade ainda —
a exemplo do setor coureiro-calçadista que passa por
uma crise promovida pela supervalorização do real
e pela invasão chinesa —, pode complicar os investimentos.
Na curva do custo/benefício, a cadeia calçadista
poderia até conseguir novos mercados e mais facilidade
de importação de algumas matérias-primas,
mas também há o preço de perda de clientes.Se
a Rodada de Doha chegasse a negociações em que
não exista subsídios ou diferenciação
que ponha em risco a competitividade dos países, lógico
que seria bem-vinda. Essa é a avaliação
da superintendente da Assinteal (Associação Brasileira
de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos),
Ilse Guimarães. “Enquanto não ocorre o entendimento,
acordos paralelos são fechados, como ocorreu recentemente
entre o Chile e a China, possibilitando que condições
diferenciadas sejam criadas em benefício de apenas algumas
nações”, argumentou a superintendente.